14 maio 2009

Que rapaz mais adorável

Não simpatizo com a raça humana. Nunca o fiz, desde pequeno. Com o passar do tempo, este preconceito foi comprovado pela experiência. Gente é um troço barulhento, indelicado, estúpido e na maior parte das vezes, inútil. Feito um moedor de milho. Desta maneira, tenho bastante ciúmes de minha solidão, cultivada diariamente.

 

Nestes últimas dias, porém, sofri uma violenta investida das forças humanas: novos vizinhos. Terríveis. Barulhentos. Indelicados. Estúpidos. Inúteis. Uns moedores de milho. Felizmente, são temporários, e graças às táticas defensivas que adotei, este tempo vem decaindo. Com empenho e dedicação, a velha Xantipa e seu marido anti-Sócrates deixarão de ser meus vizinhos.

 

Levo uma vida silenciosa aqui. Mesmo sozinho, evito fazer barulho, pois o considero besta. Os novos vizinhos notaram esta minha característica e acharam-me uma graça. Que rapaz mais adorável...Pois sim! Defendi-me dignamente deste jeito:

 

Noite Um. No mais denso silêncio da madrugada, dei um grito inesperado. URRRAAA!! Depois contei alguns segundos e espatifei uma garrafa de vidro no chão. Não contente, atirava bolinhas de gude, em intervalos de trinta minutos. Fiz isso até as cinco da matina. Que rapaz mais adorável

 

Noite Dois. Quatro da madruga acordei. Novamente, denso silêncio. E por que não colocar a parte final de "We´re only in it for the money"? Não em alto volume, diga-se. Apenas sugerindo que o rapaz mais adorável produz uma estranha cacofonia. E tem um monte de gente no quarto dele rindo, pensa o anti-Sócrates. Pensa? Hmmm, estou sendo meio otimista...

 

Noite Três. Começa o silêncio (mas pouca gente percebe) em torno de 01:00. Ora bolas, minhas facas estão cegas. Passo um tempinho afiando-as, e desafiando a imaginação dos vizinhos infernais. Que diabo de rapaz mais adorável este que passa a noite amolando facas? Também dei um grau nos formões. São noruegueses, custam uma nota e não podem ficar cegos.

 

Noite quatro. Pretendo parar com os estranhos barulhos. Se bem que meu latim está enferrujado. Seria uma boa relembrar os tempos verbais em voz alta. E ler um pouco de Virgílio. "Aeinedos liber primus... Arma virumque cano, Troiae qui primus ab oris Italiam fato profugus..."

 

Manhã após a noite quatro. Ouvi a frase solta: "vamos embora hoje mesmo!" Yesss. Estes vizinhos já mudaram de idéia, mas eu continuo me achando um rapaz adorável.



Escrito pelo desalmado Felipe Balster. Talvez pulemos eu e ele para o multiverso. Foxx vai sentir saudades. Ou não.

2 mil comentários:

RP disse...

Dormir???? Nem os vizinhos... bem você, neh? rs

Serginho Tavares disse...

gente é sempre um mal necessário
rs